quinta-feira, 29 de outubro de 2009

As traduções da Mamã ;)


Jay ligou a Nádia na manhã seguinte.
— Olá — disse ela, alegremente.
— Como estás?
— Destroçado. É duro, isto de dar à luz.
— Bom trabalho. E mais?
— Um rapaz. Três quilos e novecentos, sadio, olhos azuis, cabelo preto. — E rematou:
— E uns tomates enormes.
Nádia riu-se. Não podia evitar, ele parecia perplexo.
— Ele depois cresce. Como se chama?
Daniel Anthony. Nasceu às onze horas. Tenho estado a ligar à família toda.
— Ainda bem que correu tudo bem. E a Belinda?
— Emocionada. Feliz. Jura que ele é a cara do Anthony, mas tu sabes como são os recém-nascidos. A mim só me parecem encarnados e amolgados.
Nádia quis ajudar:
— Isso é por seres homem.
(...)
Nádia fez chá e admirou as fotografias do bebé. Eram muitos os recém-nascidos que pareciam montinhos de carne, mas Daniel, felizmente, tinha umas sobrancelhas cheias de personalidade, olhos castanhos enormes e um tufo de cabelo como o Tintim.
— É lindo — disse Nádia, porque tinha de se dizer sempre isso de um bebé, mesmo que parecesse uma noz dentro de um fato de macaco. Mas aquele não. Daniel era bonito, com grandes pestanas, dedinhos delicados e um queixinho pontiagudo delicioso.
— Obrigado. Embora não seja meu — disse Jay.
(...)
— Desculpa, desculpa... as coisas pegajosas estavam sempre a colar-se às partes erradas... e depois percebi que a tinha posto ao contrário... entra, meu Deus, isto é mais difícil do que eu pensava. — Com ar aturdido mas contente por vê-la, Jay mandou-a entrar. Era evidente que ele também não tinha tido tempo de se pentear nem de pôr brilho nos lábios. O bebé, todo nu tirando uma fralda descartável pendurada num pezinho, queixava-se e agitava as perninhas contra o peito de Jay. Havia uma mancha muito suspeita na parte da frente da camisa de ganga. Evidentemente desagradado por se encontrar nas mãos de um amador daqueles, Daniel deu um pontapé que atirou a fralda pelo ar.
— Mary Poppins, presumo. — Apesar de tudo, Nádia não conseguia fazer cara séria. Desde que o conhecera, Jay sempre tivera tudo controlado, em todas as situações. Nada o abalava.
Excepto, como se estava a ver, as complexidades de pôr uma fralda descartável a um bebé.
— Deixa-me pegar-lhe. — Nádia estendeu os braços para o bebé e Jay passou-lho, sem esconder o alívio.
— Cuidado, ele parece a Fonte de Trevi. Quase me acertava no olho quando estava a mudá-lo. Não fazia ideia de que os bebés fazem chichi a cada dois minutos.
— Eu diria que tiveste sorte. Os bebés não fazem só chichi. — Os anos em que tomara conta de crianças para ajudar à faculdade davam vantagem a Nádia; deitou Daniel no trocador – branco com elefantinhos azuis – e pôs-lhe uma fralda limpa num instante. Remexeu no saco que estava no chão, encontrou um macaquinho limpo e vestiu-lho sem dificuldade. As molas entre as pernas deram um estalido de satisfação quando ela as apertou. O bebé estava com um ar quase desapontado, como se ela lhe tivesse ido estragar a brincadeira. Olhou à sua volta em busca de inspiração, e começou a balbuciar. Nádia viu o biberão de água na mesinha baixa, pegou nele e pô-lo na boca do bebé antes que este estivesse lançado.
— Foi fervida?
— Claro que foi fervida, não sou completamente incompetente.
(...)
Nádia sentiu a mãozinha pequenina de Daniel agarrar-se ao dedo indicador dela, certamente uma das melhores sensações de todos os tempos.
(...)
— Não é o único a quem tu fizeste esperar — observou Jay.
Nádia olhou para baixo e viu os olhos pestanudos de Daniel fecharem-se. Já não estava agarrado ao biberão. Cuidadosamente, deitou-o no sofá e rodeou-o de almofadas, e arrependeu-se quase de imediato. Daniel servira de escudo. Agora já não sabia o que fazer às mãos.
— Esse plano correu mal — disse Jay com um sorriso pesaroso.
— A ideia era abrir a porta com o Dan ao colo. Ele era para estar contente e sossegado, e tu ias ficar loucamente impressionada com a minha capacidade de lidar com ele, para não falar de deslumbrada pelo quadro espectacular que faríamos.
(...)
— Posso sempre tirar a casa do mercado, sabes. Não sou obrigado a sair de Bristol.
No sofá, romanticamente, Daniel escolheu a ocasião para soltar um punzinho de bebé a dormir.
Nádia desatou a rir.
(...)
Rrrrinnng.
— Raios, quem é? — Jay virou-se, siderado, quando a campainha guinchou.
Bem alto.
No sofá, os olhos castanhos de Daniel abriram-se, alarmados. Sacudido do sono, soltou um berro indignado e deu socos nas almofadas com as mãozinhas fechadas, a exigir que lhe pegassem.

Irresistível Tentação, de Jill Mansell, para as Edições Chá das Cinco

Sem comentários: