quarta-feira, 30 de dezembro de 2009

As mãos também lêem




À mesa, diz-se que os olhos também comem. Para Robert Sabuda, um dos mais conhecidos autores de pop-up books do mundo, essa máxima inverte-se numa troca anatómico-oftalmológica: "As mãos também lêem."

Os livros de Robert, adaptações de clássicos como "Alice no País das Maravilhas" e "Peter Pan", ou livros pedagógicos como a colecção "Enciclopédia Pré-Histórica", apelam à criança que há dentro de cada um de nós e à criança que há dentro de cada criança. São livros com vários livros (e animais, heróis e vilões) lá dentro, obras de arte feitas à mão, peças de artesanato que demoram um ano a serem produzidas. A Robert Sabuda junta-se frequentemente outro artista do papel, Matthew Reinhart. Ambos são frequentemente interpelados com uma pergunta: "Como é que isso é possível?"

"É magia sem electricidade", lembra Reinhart, "quando alguém vira uma página dos nossos livros e se interroga como aquilo foi feito está a ter a mesma reacção de quando vê um truque de ilusionismo". O segredo aqui é simples: papel, tesoura e cola. Isso e um par (às vezes mais) de mãos muito talentosas.

Nos livros pop-up não há trabalho de máquinas ou computadores durante a maior parte do processo. Toda a montagem é feita à mão, o que justifica tanto o preço elevado (nunca menos de 30 euros) como a escassez de títulos neste formato.

Trabalhos manuais
Engenharia do papel é o nome de um mestrado da Universidade da Beira Interior. A descrição do site da faculdade é encorajadora: "A formação multidisciplinar fornece as competências para a concepção e desenvolvimento de novos produtos e processos, bem como para a condução e optimização de processos de transformação existentes." Fascinante. Mas, verdade seja dita, nem toda a gente gosta de passar o resto da vida a optimizar processos de transformação existentes. Não é isso, pelo menos, que faz Andrew Baron um dos engenheiros de papel por trás de mais de uma dezena de livros pop-up - e aqui a expressão "engenheiro do papel" é usada segundo a designação americana de quem conta histórias com dobragens e colagens.

"Sou responsável pelo pop, na expressão pop-up", resume. É Andrew quem constrói os sistemas de alavancas, aparentemente simples, que dão vida ao livros. "Tenho de olhar para as ilustrações e ver o que posso movimentar ali e como", explica ao i por e-mail. Tem um emprego raro - "como eu devem haver uns 12 no mundo" - mas gaba-se que não lhe falta trabalho. Ocupação que tem duas grandes recompensas: "A reacção de miúdos e graúdos", em primeiro lugar, "e a oportunidade de trabalhar numa das últimas indústrias no mundo em que o trabalho é 100% manual".

Livros como "Alice no País das Maravilhas" interpretados por Robert Sabuda voam das prateleiras das livrarias sempre que se aproxima o Natal. Numa altura em que se fala tanto de suportes digitais de leitura (como o Kindle ou o Sony Reader) e se questiona o futuro dos livros em papel, que lugar têm estes estranhos objectos - uma mistura de literatura com banda desenhada, escultura, cenografia, origami e arquitectura?

"Ter um livro destes nas mãos é um prazer enorme, sem comparação no mundo digital", assinala Matthew Reinhart. "São objectos de colecção, peças únicas de trabalhos manuais", aponta Robert Sabuda.

Pilhagem ao economato
"A minha mãe era secretária na Ford Motor Company, no Michigan, e levava para casa material de escritório. Comecei a fazer recortes de papel porque não tinha muitos brinquedos", recorda Sabuda. Motivado pela professora primária, foi estudar para uma escola de artes, o Pratts Institute, em Nova Iorque.

Anos mais tarde, como ilustrador, começou por ganhar dinheiro a desenhar para livros de colorir infantis - o grau zero da carreira de um contador de histórias. Só depois do primeiro livro para crianças, no final dos anos 80, a vida profissional de Robert Sabuda entrou em modo bola-de-neve. Mas o seu verdadeiro interesse (ou vocação), os livros com animações tridimensionais, começou anos mais tarde, com a publicação do aclamado "Tutankhamen's Gift", em 1994.

Legado
Mas este texto não estaria a ser escrito agora se não fosse Vojtech Kubasta. Foram os livros deste arquitecto checo que fizeram Sabuda começar a fazer ilustrações 3D. E foram os seus castelos e cavaleiros a saltar das páginas que fizeram Waldo Hunt, a meio do século passado, salvar os pop-up books do esquecimento.

Na história dos pop-up books há um AW, DW (antes de Waldo, depois de Waldo). Antes deste publicitário pegar nestes livros-brinquedo esquecidos, os pop up eram velharias à venda em lojas de curiosidades. Uma arte perdida por ser muito trabalhosa e pouco rentável, conheceu nas mãos de Waldo uma segunda vida. Criou a editora Intervisual Books depois de encontrar livros de Kubasta numa velha livraria e dinamizou a produção e distribuição destes livros raros - que surgiram na idade média e conheceram o seu auge na época vitoriana, altura em que contavam histórias de fadas e dragões em edições luxuosas e personalizadas.

O coração de Waldo Hunt deixou de bater a 26 de Novembro deste ano, mas o seu legado sobrevive no trabalho de homens como Robert Sabuda. Depois da sua morte, o autor disse que antes de Waldo os livros para crianças eram "uma espécie de enteado das editoras" e os pop-up eram "filhos desses enteados". E hoje? "São objectos que os pais compram para eles próprios com a justificação de que é para oferecer aos filhos."


1 comentário:

###a.l.#### disse...
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