quarta-feira, 19 de dezembro de 2007

"O significado de dar à luz" pela minha amiga Rita, mãe pela segunda vez

Eu nasci pela primeira vez no dia 26 de Julho de 1974; nasci pela segunda vez no dia 26 de Maio de 2004 e no dia 5 de Dezembro nasci pela terceira vez. Nasci com o Eduardo, que ofereço à luz e ao mundo.

Hoje consigo compreender o termo “dar à luz” para além do seu significado técnico. Há muita luz no mundo, meu filho, que a partir de hoje começarás a descobrir. Dar à luz, dar-te à luz, é ter o privilégio de te anunciar de coração cheio e pesado de amor que no mundo há coisas muito belas. É sobre elas que te vou falar: sobre momentos simples e fugazes que enchem os dias de sentido. São esses, Eduardo, a que aprenderás a chamar “momentos felizes.”

Terás o sorriso da tua irmã, o toque das suas mãos pequeninas, o calor delas emanado que procurarás sentir no rosto sempre que ela se aproximar de ti. Haverá o colo grande do teu pai, a primeira voz grave que conhecerás, terás as festas doces dos avós dos “abraços-prontos”. Saberás da memória auditiva que temos sempre para as vozes daqueles que amamos e, mesmo quando já não estão entre nós, nunca, nunca, nos esquecemos delas. Aprenderás que os amigos são a família que pudemos escolher, que tivemos a sorte de encontrar.

Um dia provarás o sabor bom a sal que fica no cabelo depois de um mergulho no mar, apreciarás extasiado o recorte belíssimo das gôndolas venezianas em contra luz, a visão do lento mergulho pesado de uma baleia, ou o mergulho despido e tão bom nos olhos das pessoas que vieres a amar. E tantas mais coisas belas, Eduardo, quisera eu lembrar-me de todas... o Tejo em todas as horas, sereno e eterno, a casa Batlló do Gaudí, em cujas paredes onduladas apetece passar as mãos, o cheiro da chuva deitada no chão das ruas, a dança, todas as danças que são expressão dos corpos em comunhão com a música, a música como verdade escondida e subtil que existia no mundo desde o seu início, a paz que entra no coração depois de choradas grossas lágrimas, o entender o “My way” do Sinatra no final de cada ciclo de vida, frase a frase: tudo fará sentido e terá luz, muita luz, lá dentro.
E os livros, Eduardo, os livros onde estão todas as histórias de amor, todos os momentos felizes, onde estamos todos nós, ora trágicos, ora heróis, tão imperfeitos, tão inacabadamente vivos.

Entederás que nunca ninguém é amado demais, que não existe amor a mais... mas que deveria haver mais amor tantas e tantas vezes.
Perceberás com tudo isso o que significa ter sido dado à luz... e entenderás as palavras do John Lennon “imagine all the people living for today.”

Quisera eu que o mundo te recebesse hoje e sempre num grande abraço... e mesmo que ele não to ofereça todos os dias, contarás com muitos momentos felizes, como estes de que te falei. E outros que descobrirás tu e me ensinarás a mim. À tua mãe para sempre.

Rita

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