domingo, 23 de dezembro de 2007

A Obstinação dos Corvos Esfomeados de Mikuyu

É um poema do Malawi, o único que consta do grande legado de Manuel Hermínio Monteiro para a Assírio & Alvim, que descobri quando comprei essa Rosa do Mundo, 2001 poemas para o futuro, e que mostrei ao Papá do Lucas ainda éramos só muito amigos ;)


Estes não podiam ser os corvos de Noé, estes corvos

da Prisão Mikuyu crocitando nos nossos telhados todos

os dias; por onde tivessem deambulado depois das peregrinações

desastrados no epílogo dessas inundações

imemoriais, os corvos de Noé não podiam ter aterrado

aqui (eles nunca regressaram à arca do seu dono).


Estes também não podiam ser os corvos de Elias; por

mais que esta nação possa ter obstinadamente desafiado

as rãs de Deus Todo-Poderoso, esses gafanhotos vorazes,

as secas e pragas intermináveis, não há hoje

um profeta que Deus ame tanto que o queira salvar

(com o pão e a carne de corvos mensageiros!)

Estes só podem ser dessa espécie pagã de

corvos esfomeados e abutres devoradores de carcaças, aqui enviados

para bicarem a nossa insónia e os olhos injectados de sangue

e martelarem a paz desta cela deserta com

as pancadas dos seus duros bicos. E por que não

escolherão qualquer outro lugar ou tempo?

Por que aparecerão estes corvos na Prisão Mikuyu,

sempre de madrugada, martelando no ferro

retorcido desta cela, perfurando a medula dos ossos

frágeis e debicando as espinhas de peixe

roubadas das latas de lixo que pusemos lá fora?

Jack Mapanje (n. 1944)
tradução de José Adalberto Oliveira

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